A Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde (OMS) estima que existam aproximadamente 500 milh√Ķes de obesos no mundo. A obesidade, que √© calculada pelo √ćndice de Massa Corporal (IMC), numa rela√ß√£o entre peso e estatura, tem se tornado uma preocupa√ß√£o cada vez maior, n√£o s√≥ pelas complica√ß√Ķes que ela traz para as pessoas, mas¬† tamb√©m pela redu√ß√£o na expectativa de vida em aproximadamente 30%. Al√©m disso, √© importante ressaltar que a obesidade gera um alto custo para o sistema de sa√ļde p√ļblica, que precisa arcar com o tratamento dessas pessoas. Com isso, profissionais da √°rea buscam estrat√©gias eficazes para minimizar os efeitos da obesidade.

Atualmente, a cirurgia bari√°trica √© considerada o melhor procedimento, a curto-m√©dio prazo, para o tratamento de pacientes com obesidade extrema, popularmente chamada de obesidade m√≥rbida. Capaz de reduzir em at√© 40% o peso do paciente, este procedimento cir√ļrgico ainda ajuda a melhorar o quadro de algumas comorbidades associadas ao elevado sobrepeso, como hipertens√£o, doen√ßas cardiovasculares, diabetes e c√Ęncer. Vale lembrar, essas s√£o as principais enfermidades tratadas pelo sistema p√ļblico de sa√ļde.

Contudo, esse procedimento não é exclusivamente benéfico. Além do longo tempo de espera para a realização da cirurgia, com uma fila de quase 6 anos, o que agrava o quadro desses pacientes, a perda expressiva de massa corporal não é exclusiva de gordura, sendo acompanhada por uma redução da estrutura e função de outros tecidos, entre eles o ósseo e o muscular. Nesse sentido, os alunos de doutorado Saulo Gil e Igor Murai, ambos formados em Educação Física, do Laboratório de Avaliação e Condicionamento em Reumatologia (Lacre) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em estudo ainda em andamento, investigam como essas consequências negativas podem ser atenuadas com o exercício físico realizado após a cirurgia. Saulo estuda o tecido muscular, enquanto Murai foca no tecido ósseo.

Em curto prazo, √© ineg√°vel a import√Ęncia da cirurgia: ‚ÄúAparentemente, as pacientes consideram a cirurgia algo mais f√°cil. De modo geral, Eles apresentam h√°bitos alimentares ruins e, principalmente, comportamento sedent√°rio desde a inf√Ęncia, para chegar a esse n√≠vel de obesidade. A gente tem paciente que operou com menos de 30 anos, considerando que s√≥ na fila j√° est√° em m√©dia seis, elas levam essa condi√ß√£o desde muito jovens‚ÄĚ, explica Murai.

Saulo concorda e complementa: ‚ÄúAs pacientes que chegam nesse n√≠vel j√° tentaram de tudo, todas as dietas poss√≠veis, ir √† academia, mas todas essas tentativas foram ineficientes. Temos pacientes com 196kg que t√™m dificuldade de mobilidade. Como vamos colocar uma pessoa assim para fazer exerc√≠cio? A cirurgia √© um passo importante, nesse caso‚ÄĚ.

Contudo, em longo prazo, os resultados ainda n√£o s√£o t√£o otimistas, como continua Saulo Gil: ‚ÄúO p√≥s-cir√ļrgico √© bem agressivo, n√£o √© s√≥ reduzir uma parte do est√īmago, √© algo que envolve uma mudan√ßa comportamental (psicol√≥gico e em rela√ß√£o a exerc√≠cio e a ingest√£o alimentar). Uma pessoa que estava acostumada a comer tudo, agora mal pode comer uma colher de arroz. Al√©m disso, √© importante destacar que existem dados que mostram que em aproximadamente 4 anos, quase 70% dos pacientes reganham o peso perdido na cirurgia. Se o intuito era reduzir gasto de sa√ļde p√ļblica e promover melhor qualidade de vida a estes pacientes, foi ineficiente‚ÄĚ.

O período após a cirurgia, portanto, é aquele que tem se mostrado o mais difícil para os pacientes, e é nele que está o estudo dos dois pesquisadores. Três meses após a cirurgia, os pacientes são submetidos a uma nova bateria de exames e começam o período de treinamento físico, realizado no Lacre.

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As evid√™ncias apontam que o treinamento atenua e interrompe as perdas dos tecidos √≥sseo e muscular ap√≥s a cirurgia. ‚ÄúNos primeiros achados, comparando os pacientes p√≥s-operat√≥rio que fazem e os que n√£o fazem exerc√≠cio, podemos j√° perceber que os que fazem ficam mais pr√≥ximo do que √© uma pessoa saud√°vel e fisicamente ativa. Quem n√£o faz exerc√≠cio apresenta melhora, mas n√£o t√£o significativa‚ÄĚ, comenta Saulo.

No tecido muscular, o paciente tem uma expressiva perda de for√ßa, que √© proporcional √† massa do m√ļsculo. Quando n√£o h√° o treinamento f√≠sico, o tecido provavelmente ficar√° com a massa reduzida, similar ao observado no p√≥s-operat√≥rio, o que traz algumas debilidades ao paciente, como diz o pesquisador: ‚ÄúCom aumento da massa muscular, melhora-se a funcionalidade do indiv√≠duo em atividades cotidianas. Al√©m disso, a for√ßa √© uma vari√°vel que est√° relacionada √† mortalidade: aumentar o n√≠vel de for√ßa √© aumentar a expectativa de vida.‚ÄĚ

O exerc√≠cio f√≠sico √© parte integrante do processo de cirurgia bari√°trica. O peso estabiliza depois de um ano da opera√ß√£o, e nesse per√≠odo √© essencial o acompanhamento do comportamento, tanto nos h√°bitos alimentares, quanto no condicionamento f√≠sico. Assim como para o tecido muscular, o √≥sseo precisa desse complemento, pois, apesar de pessoas obesas possu√≠rem o tecido mais fortalecido que pessoas magras, por sustentarem diariamente uma carga maior, precisam desse fortalecimento ap√≥s a cirurgia. Como diz Murai: ‚ÄúEles s√£o ‚Äėprotegidos‚Äô nessa quest√£o biol√≥gica, tendo mais massa √≥ssea do que uma pessoa saud√°vel da mesma idade, mas as evid√™ncias apontam que ap√≥s a cirurgia, como h√° uma queda de peso expressiva, h√° uma perda √≥ssea relevante associada. O exerc√≠cio f√≠sico √© um est√≠mulo j√° conhecido para manuten√ß√£o do tecido e para promover ganhos no osso.‚ÄĚ

Para esses profissionais, o maior desafio de todo o processo tem sido o per√≠odo dos 6 meses em que os pacientes precisam de um comportamento exemplar para que a cirurgia seja efetiva. Segundo Saulo Gil, √© dif√≠cil se comprometer com algo t√£o agressivo: ‚ÄúAs nossas pacientes perdem peso, come√ßam o per√≠odo de treinamento mas continuam pensando na comida. √Č preciso ter a consci√™ncia que a cirurgia n√£o √© algo definitivo em que haver√° a perda de peso e pronto, h√° uma etapa complicada depois para chegar a um patamar saud√°vel. √Č por isso que um consider√°vel n√ļmero de pacientes dizem que, se pudessem voltar atr√°s, n√£o teriam feito a cirurgia.‚ÄĚ

Nos √ļltimos 15 anos, o n√ļmero de obesos m√≥rbidos cresceu 5%, n√ļmero absurdo para essa categoria, o que deixa cada vez mais evidente a import√Ęncia de um procedimento como a cirurgia bari√°trica, uma alternativa interessante para atender a uma popula√ß√£o que sofre bastante com baixa auto-estima e qualidade de vida deteriorada. Mesmo que posteriormente seja um tratamento agressivo para esses pacientes, com a ajuda multidisciplinar de alguns profissionais, nos pr√≥ximos anos a cirurgia pode vir a ser uma estrat√©gia ainda mais segura e convidativa a essas pessoas. ‚ÄúEu estudei esporte, mas hoje trabalho com sa√ļde, justamente por entender que essas pessoas precisam da ajuda de pessoas de nossa √°rea, a educa√ß√£o f√≠sica. No esporte tamb√©m, claro, mas √© uma motiva√ß√£o diferente. Os pacientes n√£o t√™m a quem recorrer. O exerc√≠cio f√≠sico traz uma s√©rie de benef√≠cios e sua import√Ęncia, mais do que nunca, tem que ser enfatizada‚ÄĚ, conclui Saulo Gil.

*Dados de Gabriel Campos / USP


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